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A medida da loucura

madness-227958_640Hoje presenciei uma cena triste: uma jovem teve um surto dentro do mercado. Começou a discursar sozinha e, de repente, passou a dar socos no caixa eletrônico. Me perdi naquele episódio. Uma moça bem vestida, boa aparência, uns vinte e poucos anos. No mesmo instante inúmeras hipóteses passaram na minha mente: está usando drogas, está enfrentando problemas, simplesmente enlouqueceu… Seja o que for, nunca saberei. Foi triste de ver! E mesmo desconhecendo as suas razões, aquilo me marcou. E comecei, então, a observar as pessoas ao meu redor. Fui para casa e, dirigindo, observava cada alma que cruzava meu caminho. Perguntava mentalmente: o que se passa com essa pessoa ali? E com aquela lá? Sem me dar conta, estava a analisar as pessoas da rua. Até que, num semáforo, parei. Pois bem na minha frente atravessou um senhor de barba branca e comprida, apoiando-se em um galho de árvore e com uma sacola de pano na cabeça fixada por um cinto. Certamente pensava ser o Gandalf, do filme ‘The Hobbit’. Fiquei intrigada: quando foi que essas pessoas perderam a sanidade e, sem perceber, passaram à insensatez? Afinal, qual é a medida da loucura? Minha ficha caiu. A linha entre a loucura e a lucidez é muito tênue. Veja você, essa moça do mercado e esse senhor na rua: sequer perceberam que não estão mais de posse de suas plenas faculdades mentais. Estão vivendo de acordo com a lógica de suas maluquices, sem compreender que a realidade dos sãos não mais lhes pertence. Não se veem em desatino. Não têm consciência da sua loucura. Vivem uma ilusão. E pior: acreditam nela! De repente, fiquei com medo. Medo de enlouquecer. Ou de já estar louca e não saber! Respirei fundo e segui em frente. Afinal, ainda lembrava o rumo de casa. Ufa, cheguei! Senti um certo alívio por chegar. E cá com meus botões, me pus a refletir: Quantas vezes nós, lúcidos, nos iludimos? Quantas vezes, por razão ou outra, acreditamos em verdadeiras quimeras, como se fossem reais? Não seríamos, então, todos nós, humanos, um pouco doidivanas? Quantas vezes acreditamos numa mentira pelo simples fato dela estar sendo contada por nós próprios? Nem tudo o que sai da sua boca é real. Nem tudo o que você escuta é real. Nem tudo o que seus olhos veem é real. Nem tudo o que você PENSA é real. Pare e responda: qual é a medida da sua loucura? Não sabe dizer, não é… Então, meu amigo, só há um jeito: antes de chamar alguém de doido analise-se, pois o louco pode ser você!

Silêncio

rest-2106964_640É preciso aprender a escutar o silêncio. Ao compreendê-lo, abandona-se o hábito do barulho: aquele emaranhado indecifrável de sons ocos que se misturam e se sovam feito massa de pão. Quando a festa acaba, não tem mais jeito, o silêncio se aprochega… E atinge em cheio os ouvidos! Restam apenas você e o vazio que sente quando não há bailes, não há fragor, não há máscaras. Acabou o aglomerado ruidoso, que de tão cheio é capaz de esconder um grande nada. Você e o silêncio: som mudo e sagaz, perito em revelá-lo para seu próprio eu. Ardiloso, sabe com maestria formalizar o encontro que ninguém quer ter consigo mesmo. Ah… como é revelador! Sem piedade, o silêncio expõe. Não há segredos quando se está a sós, ao som do silêncio. Ele chega de repente e impacta: tira sua roupa, desvenda seus mistérios. Você não tem onde se esconder. Está nu na quietude dos seus pensamentos. E como é dor! A dor da sinceridade. Pois é no silêncio que você mora. É no silêncio que você se mostra. É lá, no remanso da alma, que está seu autêntico eu. O silêncio não é para os fracos! Se tiver coragem, abra a porta e deixe-o entrar. Permita-se entorpecer na calmaria da sua própria consciência. Aprenda a escutar a sabedoria do vácuo. A toada que nada fala mas tudo diz.

Simplicidade

gerbera-1346587_640Simplicidade não é desleixo. Não é pobreza. Não é rusticidade. Simplicidade é uma escolha. Um estilo de vida. É quando você desapega de coisas, sentimentos e pessoas que não te acrescentam. Vida simples é aquela que se vive sem excessos, apenas com o necessário. Com aquilo que é importante para você. Com aquilo que faz você feliz. Simplicidade não tem relação com vestir roupas largas e chinelos velhos, andar despenteado vagando por aí. Não é ter uma casa mal cuidada ou um carro caindo aos pedaços. Ser simples não significa ausência de vaidade ou asseio. Você pode ser simples e estar bem arrumado. Você pode ser simples e andar perfumado. Você pode ser simples e ser gentil com as pessoas. Simplicidade e luxo não são conceitos opostos! Ser simples é descomplicar a vida. É manter o que é útil e descartar o lixo. Olhe para dentro e reflita. Se você for sincero consigo mesmo, saberá exatamente a medida da sua simplicidade!

A segunda metade da vida

adventure-1868817_640Chegar aos 40 anos significa atingir a metade da vida. Isso em termos, claro, pois ninguém sabe a hora da partida e muitos sequer chegam aos 40 anos. De qualquer forma, completar essa idade é um marco para a maioria das pessoas. É nesse tempo que você compreende que não é mais jovem. Mas também não é idoso. Para muitos dos seus sonhos você se acha velho, muito embora ainda não tenha um cartão de descontos para aposentados na farmácia. Fica difícil aceitar que o mundo não está mais aos seus pés… Ontem estava, hoje não mais. Começa a pensar na finitude da vida, mas logo espanta esse pensamento. Zonzo, você quer agir! E deseja ardentemente se dedicar àquilo que realmente importa. Àquilo que faz vibrar o corpo e a alma. Quer sentir que está vivo. É como se a sua última oportunidade de dar uma guinada estivesse ali, na sua frente. Você é todo dúvidas e reflexões. Compreende que o tempo não é mais seu aliado. Lembra daquela música antiga que tantas vezes você cantou e se identificou: temos todo o tempo do mundo… somos tão jovens… Mas você já se enquadra mais nela. E depois de um período perdido em meio ao temporal, seus pensamentos começam a clarear. Afinal, chegar na metade da vida pode ser maravilhoso. Porque te coloca de frente para o espelho. Você de frente para você. E o pior: você sem roupas! Você vai analisar sua vida, vai sofrer com seus erros, vai valorizar seus acertos. Vai botar tudo, tudinho, na balança. E vai encontrar equilíbrio. Isso não é simplesmente perfeito? Você será alçado a um patamar na existência em que apenas investirá seu precioso tempo e energia com aquilo que realmente importa. Vai olhar o mundo com mais calma, lentidão, demora. Buscará ao máximo a leveza, a beleza, o prazer em tudo que faz. Vai voltar a fazer planos. Ambiciosos! Mirabolantes talvez. Mas tudo bem: Você tem 40 anos e já não teme. Você, amigo, está maduro. Pronto, recauchutado e reabastecido para seguir a caminhada! Se você já chegou aos 40, sabe bem do que estou falando. E se posso ousar a lhe dar algum conselho, é que se jogue na vida. Mas se jogue sem pudor! Se ainda não chegou, espere. Guarde esse depoimento para o dia em que os 40 anos baterem em sua porta. Não dizem por aí que a vida começa aos 40? Pois pode acreditar: dizem isso e não é à toa! Palavra de uma quarentona…

Por que choro?

emotion-1465151_640Por que choro? Choro porque estou farta. Farta de tanta injustiça, farta da maldade humana. Farta da crueldade que assola nossas vidas, invade nossas casas, maltrata nossas crianças. Então transbordo! Choro quando vejo uma criança agredida, relegada, morta. Inocentes! Ricos anjos de tenra idade já sofrendo nessa vida dura. Choro porque sou mãe e ser mãe dói. Quando vejo uma mãe chorar a morte do seu filho, eu choro junto. Espécie de empatia entre mães. Não fico indiferente. Não consigo ficar. Não importa quem seja o filho, qual sua condição. Choro quando me coloco no lugar delas, desasadas de seus pintinhos. Pobres criaturas que passam a viver por mera insistência. Choro porque no meu peito bate um coração de mãe. E um coração de mãe sempre será solidário ao coração de outra mãe. Porque amor por filho é coisa sem medida. É coisa sem explicação. É coisa que não pertence a esse mundo bandido. É amor demais para passar despercebido. É amor que dói. E por isso choro. Choro porque a maldade me fere mesmo que não me atinja. Eu, na minha pequenez, não sou capaz compreendê-la, de perdoá-la. Estou farta! E apesar de farta, a vida não me faz dura. Ao revés, me faz mole. De coração mole. Mole e teimosa, porque apesar do choro continuo a acreditar na vida. E então choro. Choro porque estou farta. Choro porque sou sensível. Choro porque sou solidária. Choro porque sou mãe. Choro porque resisto.

A (in)tolerância religiosa

hands-1445472_640Na época dos tribunais de inquisição medievais, a Igreja Católica, a pretexto de eliminar os supostos hereges e feiticeiros, condenava os assim considerados à fogueira. Pessoas foram queimadas vivas publicamente apenas por expressarem um pensamento diferente daquele desejado pela instituição. Sem entrar no mérito, tais atos foram cometidos em uma época obscura da humanidade e pertencem a um capítulo da história que ninguém quer lembrar. Pois bem, há alguns dias, na Nicarágua, uma mulher foi lançada em uma fogueira com os pés e mãos amarrados a pretexto de expulsar o demônio que a estava possuindo. Uma suposta revelação divina fez com que a nicaraguense fosse atirada às chamas em pleno ano de 2017 pelo pastor da igreja evangélica a qual a jovem frequentava. Esse episódio triste revela o quão atrasados estamos no quesito humanidade. Somos, em essência, iguais ao homem de 1200, apenas um pouco melhor vestidos. Ao ter conhecimento de uma notícia tão tenebrosa quanto essa, percebo que não evoluímos nada nos últimos 800 anos. Estamos vivendo tempos de fundamentalismo religioso e de intolerância à fé alheia. Mesmo quem não tem fé alguma é criticado, difamado e atacado. Ou seja: atrocidades continuam sendo cometidas em nome de Deus. Atentados terroristas de cunho religioso amedrontam nações inteiras, as quais vão se fechando para o mundo. A tal ponto de etnias serem proibidas de ingressar em países por causa da sua religião dominante. A paz entre as nações é uma utopia cada dia mais distante e atrevo-me a dizer que caminhamos para mais uma guerra de proporções mundiais. Lamentavelmente, enquanto não houver respeito ao outro não haverá paz entre as nações. Não haverá paz entre as pessoas. A história nos mostra que todo ato de crueldade está, na verdade, a acobertar grandes fraquezas do ser humano. Assim, precisamos mudar as atitudes opressoras. E a mudança, amigo, deve começar por você, nas suas relações pessoais. Comece respeitando o pensamento diferente de um filho ou irmão, a escolha de um cunhado. Não julgue, não emita opinião depreciativa, não critique. Simplesmente aceite. O respeito é como jogar cinzas ao vento: espalha, contamina, voa longe… Respeite para ser respeitado. Não acredite tão cegamente naquilo que você pensa, pois nem tudo é verdadeiro. Então faça sua parte: atire respeito no ventilador! Seja um ser humano diferenciado, um ser humano realmente HUMANO. Mostre ao mundo que existe espaço para as diferenças. Afinal, são as diferenças que dão graça à vida. Não tenha vergonha de expor a sua fé (ou mesmo a falta dela). Agarre-se àquilo em que acredita. Defenda suas ideias. Mas não subestime o outro que não pensa como você. Seja tolerante e viverá bem. Traga luz para esses tempos escuros!

Vida

Chegou ao fim da vida com a vida ganha. Olhou para trás e viu que deixou de viver a vida. Puxa vida! Tentou correr para viver o restinho, mas em vão. Cansado da vida, desistiu. Entendeu que a vida havia passado. Restava-lhe pouco tempo de vida. E o dia do fim não demorou a chegar. Dia cinza e sem vida. Aqui jaz Alguém que existiu mas não viveu. Triste fim! Triste vida levou aquele que ganhou a vida mas não soube viver.

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Enxame

honey-bees-326334_640De repente, ao cair da noite, umas 6 ou 7 crianças pequenas invadiram minha varanda para brincar com meu filho. Imediatamente sentaram-se no chão e começaram a falar, todas ao mesmo tempo. Somaram seus brinquedos aos já existentes e, nessa altura, eu já tinha perdido o controle sobre elas e sobre a minha casa. Era um blá-blá-blá intermitente! Um vizinho passou na calçada e, vendo aquele grupo agitado, falou: Boa noite! Estou vendo que um enxame de crianças invadiu a sua casa… Eu respondi com um sorriso e pensei o quão adequada era aquela palavra: enxame. Os minutos foram passando e aquele zumbido incessante dominava o ambiente. Achei que não terminaria nunca mais! Pensei que talvez pudesse servir como tática de guerra: uma espécie de tortura aos inimigos. Como ninguém pensou nisso antes? E desse modo a bagunça perdurava, até que, enfim, as mães começaram a chamar para o jantar. Santas! Aquelas crianças levantaram com rapidez e debandaram tal qual uma nuvem de gafanhotos, deixando os brinquedos espalhados por todo canto como se fossem restos de uma festa. E, naquele instante, o silêncio voltou! Ah, o silêncio… Música para meus ouvidos! Restou apenas uma criança: a minha. Então recolhemos os destroços pelo chão e entramos em casa. Afinal, o dia havia acabado. Olhei para meu filho e ele estava cansado. Porém, sorrindo. E eu, ainda tonta, respirei fundo e acabei me dando por satisfeita. Afinal, aquelas eram crianças felizes. Que privilégio, pensei. Um enxame na minha varanda. Um furacão de alegria, pureza e amor. Que bela forma de encerrar um dia!

Doces recordações

bubble-19329_640Na semana passada eu comprei um abacaxi verde. Coloquei na cozinha, em meio a outras frutas, na expectativa de vê-lo maturar. Esperei. Todos os dias chegava nele e dava uma conferida! Até que ontem senti um cheiro adocicado pela manhã. Pensei: é hoje! É hoje que eu te pego! Dito e feito: descasquei o abacaxi. Enquanto eu ia despindo a fruta, um aroma doce subia. Um aroma que de uma maneira incrivelmente rápida me levou para a infância, para praia. Lembrei do meu avô, que gostava da fruta. Lembrei da gente juntos, comendo abacaxi nas tardes quentes de verão. Aquela polpa suculenta que de tanto açúcar fazia grudar as mãos, o rosto, a boca. E eu, ainda criança, sujava a minha roupa enquanto ele, sempre bem humorado, fazia graça. Ah… boas recordações! E em meio a elas terminei de tirar a casca do abacaxi. Voltei para a realidade pois chegava a hora de comer. Ansiosa por abocanhar um pedaço daquele fruto amarelo e cheiroso… fui: nhac! Ácido. O abacaxi era ácido. Quanta decepção… Ainda frustrada, dei uma rebolada e fiz um suco, que ficou muito bom. Pois é, amigos… Acho que saí ganhando dessa vez. Além da bebida refrescante, a experiência me fez recordar lindos momentos. Fiquei satisfeita! Guardei com amor as memórias que me vieram à mente. Na verdade, o abacaxi, fosse qual fosse, seria sempre ácido, pois doces mesmo foram as recordações vividas naqueles instantes.