Apelo ao consumismo

blur-1850082_640Quem me conhece sabe que sou adepta do consumo consciente. Compro aquilo que preciso e nada mais. Pois bem: fui ao centro em busca de uma blusa de mangas compridas. Afinal, o frio chegou em Campo Grande! Passei por algumas lojas, olhando vitrinas, até que identifiquei algo que parecia me servir. Entrei e fui logo atendida por uma vendedora bem animada: “Oi, gata!” Pensei: Gata? Ih, agora ferrou! Tô lascada… Mesmo assim, após a calorosa recepção, dei um sorriso sem graça e prossegui explicando o que procurava. Algo me dizia que eu teria problemas ali… Mas tudo bem, segui em frente. Ela, então, começou a me mostrar peças de roupas. Posicionou-me diante de um espelho, sempre simpática. Mesmo sem querer nada além de uma blusa, por educação, eu fiquei ali experimentando vários tipos de casacos. Louca para ir embora, confesso. Mas ela foi tão solícita que resolvi ao menos experimentar. Passados alguns instantes, ela me conduziu ao provador. Vejam bem: Eu fui recepcionada na porta da loja, passei para a frente do espelho e, em 5 minutos, estava no fundo do estabelecimento. Tudo sem querer estar! Ela foi tão envolvente que eu, mesmo sem vontade, não consegui dizer que não queria. Percebam o que é o poder de persuasão de uma pessoa: EU, euzinha, adepta do minimalismo e sem papas na língua, não consegui dizer NÃO para uma vendedora! Pois a coisa ficou séria. No provador, fui soterrada: eu pedi para ver blusas e estavam diante de mim coletes, calças, blusões, casacos… E enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo ali, mais e mais unidades de tudo chegavam à minha frente. Era uma montanha de roupas! Aquilo foi me sufocando, sufocando… Sério, fiquei atordoada! De repente ela surgiu na porta: “E aí, gata, serviu?” Pensei: Serviu o quê, sua doida? Não consigo sequer pensar, o que dirá me vestir! Foi então que tive a brilhante ideia de passar a mão numa calça qualquer, e dizer: moça, essa peça aqui não serviu. Poderia buscar no estoque um número maior? E assim que ela virou as costas para o provador… eu saí correndo! Literalmente correndo! Saí porta afora da loja rumo ao mundo! Me libertei daquela louca obsessão. Saí. Simplesmente fugi da prisão tal qual um pássaro foge da gaiola. Confesso que não olhei para trás. Fui para casa sem comprar nada. E ela, sem vender nada. Saímos perdendo, as duas. Fiquei a pensar sobre a forma como sucumbimos ao apelo do consumo. Entendo que os vendedores são trabalhadores e a economia não vai bem. Entendo, também, que existe uma pressão sobre esses profissionais para que atinjam metas de vendas. Mas o que vivi ultrapassou a divisa do razoável. Foi uma espécie de assédio moral. Fui envolvida em uma situação sem estar disposta e pressionada a tomar uma atitude que não queria. Fui abraçada por uma recepção calorosa, que me deixou de “saia justa”, quase que com a obrigação de consumir. Por mais que eu tenha tentado dizer não, meu desejo foi ignorado. A vontade da vendedora foi imposta e a minha subjugada. Se eu não fosse firme nos meus princípios de consumo consciente, ela teria me vencido e eu teria voltado para casa cheia de sacolas. Sacolas repletas de coisas das quais não preciso e não quero. E um vazio enorme no bolso e também na alma. Essa história serve para mostrar como somos vulneráveis aos apelos externos. Queremos ser agradáveis e, muitas vezes, agimos em desacordo com nossos princípios para não desapontar quem quer que seja. Queremos ser aceitos pelo outro. E isso é justo. Mas cuidado: tudo tem limites. Portanto, não se deixe assediar. Saiba dizer não quando lhe mandar o coração. Preserve-se. Seja firme em seus propósitos de vida. Você será mais feliz se for verdadeiramente você. Seja autêntico! Lembre-se: sua dignidade é sua maior fronteira. Jamais ultrapasse!

 

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Aos gritos

scream-307414_640Andei fora do ar um tempo porque fiquei doente. Uma virose me derrubou pra valer! Nesse período, o principal órgão atingido foi a garganta. Muita dor, inflamação e afonia. Por esse motivo, fiquei literalmente sem falar por uns dias. Não apenas isso: precisei baixar muito o tom da minha voz. Precisei parar de gritar. Para ser sincera, até hoje, 10 dias após o começo dessa função toda, estou sem poder abusar da voz. Tive que emudecer por um tempo. Mas sabem, ficar muda me fez perceber algo importante: eu falo muito. Falo demais. E alto demais. Durante a mudez, pasmem: minha vida continuou perfeitamente. Não precisei dos meus gritos para me fazer compreender, não precisei dos meus excessos. Meu filho seguiu me ouvindo. Não precisei alterar o tom da minha voz para que ele cumprisse minhas ordens. Não precisei bradar aos quatro ventos para que ele viesse até mim me encher de carinho. Da mesma forma, meu esposo seguiu ao meu lado, escutando meu silêncio. Não houve perda de comunicação entre nós pelo fato de eu estar sem voz. Há muitos anos nos comunicamos através do olhar. Mas parece que eu havia esquecido disso… Se eu acreditasse no divino, diria que pedi a Deus essa oportunidade para aprender a ser uma pessoa melhor. Para que gritar e falar tresloucadamente? Para que viver assim, dizendo e dizendo, emendando assuntos e atropelando as conversas? Para que gritar com um filho? Precisamos realmente disso? Estou certa que não… Percebi que transfiro para minha voz todas as angústias da minha vida. Falar e falar e falar demonstra a ansiedade escondida na alma do falador. Relembrei como é bela a linguagem dos gestos, do olhar, do sentir. Não preciso falar! Como disse Dante, muito pouco ama, quem com palavras pode expressar quanto muito ama. Bravo, Dante! E assim, com essa virose malvada, aprendi a calar as palavras vazias que saem da boca e dar vida àquelas que estão sufocadas no coração. E essas… Ah… Essas não precisam de som para dizer.